quarta-feira, 9 de novembro de 2011

8 de Novembro de 2011: um divisor de águas...


Por Rodrigo Santaella*

A terça feira, dia 8 de novembro, seguramente vai ficar marcada na memória dos brasileiros, especialmente daqueles que estiveram na Universidade de São Paulo. O reitor mais reacionário dos últimos anos que, diga-se de passagem, não foi eleito sequer no processo pouco representativo de escolha para o reitor, demonstrou mais uma vez, lado a lado com o
governador Geraldo Alckmin, que projeto de universidade pretende implementar na USP. Enfrentando processos de improbidade administrativa aos montes, sendo rechaçado em sua própria faculdade, o reitor firmou um convênio com a Polícia Militar, permitindo que esta possa não só circular dentro do campus como também abordar os estudantes e intervir em suas atividades.

A trágica morte do estudante Felipe Ramos, assassinado num dia em que, ironicamente, a PM fazia rondas no campus do Butantã, serviu como desculpa perfeita para a instauração de um regime de exceção, baseado na política do medo, no qual a PM funciona como servente de uma concepção e um projeto de universidade absolutamente antidemocrático e conservador. Neste projeto, o cenário ideal é um no qual os estudantes assistam às suas aulas e voltem para suas casas, cumpram seus horários de pesquisa e voltem para suas casas. Todo o papel de criador de seres humanos críticos e de uma sociabilidade diferente, que a universidade pode cumprir, tende a se perder com a presença e a repressão policial dentro do Campus. Mas porque a PM? A PM de São Paulo é uma instituição historicamente muito conservadora, repressora, que prestou serviços vergonhosos às elites do país, e que até hoje não se envergonha disso. Pelo contrário. Não é de conhecimento de todos, mas as 18 estrelas presentes no brasão da PM de SP representam fatos históricos, momentos nos quais a PM cumpriu um papel fundamental e se orgulha disso. Citarei apenas 3, para que fique claro o argumento: repressão à revolta de Canudos; repressão à greve operária de 1917 e, pasmem, “revolução libertadora de março de 1964”. Os dois primeiros casos são conhecidos mundialmente pela repressão brutal, atentado a todo e qualquer “direito humano” e motivo de vergonha para a história nacional. Mas a última estrela talvez seja a mais chocante. Nossa segurança, no estado de São Paulo, é confiada a uma instituição que se orgulha de ter participado do golpe militar, que a tantos matou, que tantas liberdades suprimiu e que tão mal fez ao povo do nosso país. Essa é a PM que é aplaudida pela mídia e por parte da sociedade. É essa instituição que hoje convive e contamina o ambiente de produção de conhecimento livre e democrático que deveria permear nossas universidades.

Na terça, dia 8, acordei no CRUSP – fui abrigado aí por um companheiro – para participar no dia seguinte das atividades do movimento estudantil. Fui despertado ao som de bombas e gritos. Era a nossa segurança chegando, para cumprir o seu papel. Quatrocentos policiais armados fortemente, 50 viaturas, dois helicópteros, para retirar da reitoria cerca de 70 estudantes desarmados. Aos poucos, o número de pessoas que se preocupava com o destino desses estudantes foi aumentando, e em poucos minutos éramos dezenas tentando defender nossos companheiros. A imprensa já estava lá e, estranhamente, algumas pessoas favoráveis à PM no campus já estavam lá com suas câmeras e vozes agressivas, xingamentos e provocações, antes mesmo da polícia chegar. Quem os teria avisado? Que papel eles deveriam cumprir? De repórteres da TV, ouvi frases como “só filma os estudantes quando eles não estiverem falando nada” ou “pega só aquele mais agressivo, só aquele”. De alguma forma, era tudo um teatro, com um roteiro relativamente bem definido pela polícia. Nós éramos figurantes. Corríamos, tínhamos medo, mas bravamente tentávamos entender o que estava acontecendo e proteger os/as estudantes que estavam dentro da reitoria. Mas a operação havia sido muito bem pensada para impedir qualquer resistência, para garantir que a mídia só entrasse no local da ocupação bastante tempo depois da polícia ter entrado quebrando tudo. Além de pinturas nas paredes, não havia nada quebrado até a polícia entrar, mas a depredação de patrimônio público é sempre um prato cheio para formar opiniões, principalmente quando referendada com imagens...

Depois dessa demonstração de força brutal da polícia, de horas em pé, primeiro no frio da madrugada e depois sob o sol escaldante da manhã, com um saldo de cerca de 70 presos políticos, o sentimento geral era de tristeza e impotência. Mas mais do que isso, era de indignação. E foi justamente esta indignação, que reascendia todos os sentimentos de defesa da democracia da nossa universidade, que levou de uma situação na qual havia 70 estudantes ocupando a reitoria, pela manhã, e algumas centenas os defendendo ao longo do dia, para uma assembléia na qual milhares estavam presentes para demonstrar sua indignação e discutir os melhores métodos de luta contra essas situações absurdas. Se algo de positivo foi regalado através dessa ação absurda da reitoria, do governo do Estado e da Polícia Militar, isso com certeza é a retomada da unidade do movimento. Fragmentados, desorganizados e burocratizados de fato não conseguiríamos vitória alguma. O fato político criado com a operação de guerra montada na USP, que mostra para a os/as estudantes e para a sociedade como um todo o real motivo da presença da PM na USP – imprimir à força qualquer política da reitoria e do governo Alckmin, além de reprimir os estudantes – será um divisor de águas no movimento estudantil da USP e do Brasil. Pode ser um divisor de águas na própria luta social no Estado de São Paulo.

A assembléia de ontem, com mais de 3 mil estudantes, num dos momentos mais importantes do movimento estudantil brasileiro dos últimos anos, decretou greve geral dos estudantes da USP. Esse é só o começo da luta. É preciso massificar essa greve, levar para todas as unidades, chamar os professores e funcionários para a luta, e fundamentalmente trazer para as atividades as comunidades, o mundo fora da USP. Se se trata de uma das universidades públicas mais elitizadas do país, não há melhor momento para trazer as comunidades, os movimentos sociais, para a luta. Porque essa luta não é só dos estudantes, e não é só da comunidade universitária. Essa é uma luta por um modelo de sociedade. É um basta aos absurdos, à falta de democracia, ao autoritarismo da reitoria. Mas deve ser também um basta às tentativas de fechar a universidade em si mesma, de produzir conhecimento simplesmente voltado aos interesses privados das grandes empresas. É necessário que as comunidades tenham acesso aos espaços da USP, freqüentem a universidade, que os filhos dos trabalhadores possam entrar estudar na universidade. A idéia de uma guarda comunitária/universitária, treinada e concursada pela própria universidade, parece muito mais coerente com um projeto de universidade livre do que a instituição mais repressora e conservadora do Estado.

A nossa tarefa, como militantes, como estudantes, como organizações políticas, é a de jogar todo peso na construção dessa greve, tirada democrática e legitimamente na maior assembléia dos últimos anos na USP. É preciso preservar a unidade do movimento, resgatada a partir da repressão policial e da truculência da reitoria. Dialogar com servidores e professores. Temos que parar a USP até que ela volte a ser uma universidade livre e democrática.

Se o dia 8 de novembro amanheceu triste, frio e cinzento, sem dúvida a alvorada dos tempos que virão promete ser dura, mas apontando para dias mais belos.

Não somos melhores do que ninguém. Mas melhor, sem dúvida, é a nossa causa.


* Militante do Coletivo Levante, Juventude do Enlace, da IV Internacional e do PSOL

sábado, 5 de novembro de 2011

Quantos estudantes valem uma PM no Campus?



escrito por Vinicius Almeida*

Foi adiado para segunda-feira o prazo dado pela justiça para que os estudantes ocupados na reitoria da USP se retirem de lá. Pelas declarações do governador de São Paulo, a polícia paulista, a mesma que foi pivô de tanta polêmica na opinião pública, terá carta branca para, se preciso for, reprimir violentamente qualquer um que persista no prédio da direção da universidade.

Os encapuzados da reitoria, tratados como vândalos pela mídia, não usam máscaras bonitinhas do V de Vingança. Não pensam a política como crítica ética aos representantes institucionais, o que a mídia exalta sempre. São tratados como maconheiros e arruaceiros. E por isso mesmo, não tem direitos de um cidadão. Mas a pergunta que fazemos é: quem são eles?

Não sou paulista, mas imagino que a reação de uma família deste lugar, quando um de seus filhos é aprovado no vestibular da Universidade de São Paulo, é de grande orgulho e satisfação. Já são poucos os que podem pagar uma educação básica que lhes dá chance, depois de uma concorrência voraz, noites mal dormidas, horas a fio estudando e estudando, de alcançar essa vitória social, e acima de tudo, moral. Os que não conseguem, passam a pagar por uma faculdade com um emprego, duplicando sua carga de esforço e exploração. Uma minoria, muito mais minoria ainda, não precisa trabalhar, e esnobam, mas não se orgulham. Os que conseguem, devem então cuidar de suas vidas e regozijarem de seu status de “melhores”, de “vencedores”.

Só que alguns “loucos” pensam “pô, que injusto eu passar e a maioria não poder estudar aqui, de graça”. Mesmo estes sabem que nada é de graça, que o Estado paga pelos estudos dos matriculados na USP, e, na maioria das vezes, os seus contribuintes pagam para não poder usufruir desse direito, como os estudantes das pagas e gente que nunca vai saber o que é universidade. Estes “rebeldes” pensam com 18, 19 e 20 anos de idade o que muitos no fim de suas vidas não pensam, que a universidade deve ser do povo, pois é o povo que paga com seu suor a existência dela.

E são esses “lunáticos” que lutam por uma universidade aberta, livre e democrática. Que escondem os seus rostos porque o reitor pode, deve e vai caça-los, um a um, depois que a poeira baixar e a mídia esquecer dessa gente. Gente que, para todos os efeitos, são os “melhores”. Membros até então de um grupo seleto, que abriram mão de seu status, se encapuzando, lutando por igualdade, e assim tornam-se mais indesejados que todos os excluídos da universidade. Não “honraram” sua função social de elite, não se colocaram como casta superior.

A sociedade paulista escandaliza-se mais ao saber que seus “queridinhos” traem os bons costumes fumando maconha e, pior, até defendendo sua legalização, em muitos casos. Pior ainda, eles se voltam contra a defesa da ordem, a polícia, que policia hoje no Butantâ não só de um possível roubo, mas os estudantes que passam “matando aula”, ou “fazendo politicagem contra a PM”. Segurança é a última preocupação dos policiais, a primeira é reprimir seus críticos, é tutelar e alinhar a futura elite na ordem.

E em resposta a tentativa de cercear a pouca liberdade ainda existente na universidade, mil estudantes saíram em passeata na segunda-feira passada. Foi com ódio àqueles que estão tirando seus direitos de ir e vir, de se expressar, que os estudantes se levantaram. Vossa atitude é extraordinária, mas nem por isso errada. Hoje, com tanta coisa errada acontecendo, o certo passou a ser coisa de maluco. Como bom lunático, inconsequente, louco e imprudente que sou, apoio a ocupação dos estudantes da USP. Apoio também toda luta para retirada da PM do Campus e pelo fim do convênio da reitoria com ela.

Mas será que alguém quer saber o que pensam os “insanos” alunos da USP? Não, mais fácil é seguir o que falam os programas na TV e rádio, os grandes sites da internet, os bons conselheiros de sempre, que nunca explicaram porque há tanta injustiça. Agora, depois da morte de Felipe Ramos, que estimulou e justificou toda ação repressora que vemos, o que vão dizer da morte de um estudante pelas mãos daqueles que entraram no campus para, em tese, defender suas vidas? A ordem já foi dada, só resta apertar o gatilho.

Campinas, 5 de novembro de 2011

* Vinicius é estudante da pós-graduação da Unicamp (Mestrado em Ciência Política), militante do PSOL, do coletivo Plantando Sementes e ex-diretor da UNE pela Oposição de Esquerda de 2007-2009.




sábado, 3 de setembro de 2011

O novo socialismo é o Ecossocialismo

Atenção total dos jovens quadros no debate ambiental


Para Marijka Colle, o problema ambiental é um desafio, não uma catástrofe, porque ainda podemos fazer alguma coisa a respeito. Mesmo assim, a falta de consciência da maioria arrebatadora da população, incluindo a maioria dos grupos de esquerda e socialistas para essa questão, e a eminência de um colapso plenatário, tornam essa questão uma prioridade de discussão na agenda dos socialistas no mundo.

O problema ambiental tem um marco histórico importante com a revolução industrial, que aumentou a presença de CO2 na atmosfera (a partir da queima de carvão das florestas), CH4 (por máquinas), N2O (com a diminuição da vida útil dos produtos). Daí em diante com o aumento da produção capitalista, essas alterações geraram diversas consequências, a mais importante delas a alteração do clima no planeta.

A discussão dos ecossocialistas passa pela avaliação de que, portanto, o modo de produção capitalista, que coloca em primeiro lugar a acumulação de capital, não é capaz de organizar a vida humana de uma forma que ela possa preservar os meios naturais essenciais para reproduzir seu próprio modo de vida. Em outras palavras, o capitalismo não sustenta o capitalismo para sempre, e talvez nem mesmo para as próximas décadas.

Mesmo assim, na palestra de Colle ela deixou claro como os grandes empresários e potências capitalistas sempre procuram por soluções tecnológicas que mantêm os lucros e geram até mais lucros. Esse é o capitalismo verde, uma de suas figuras mais emblemáticas e o ex-vice presidente dos EUA, Al Gore. Hoje os governos burgueses buscam a solução na perigosa e poluente energia nuclear para solucionar seus problemas de escassez e metas ambientais. O Japão já serviu de exemplo terrível para onde pode nos levar essa opção de um sistema que se mostra cada dia mais irracional.

Dentre as principais propostas para superar o rumo catastrófico que a humanidade conduz o planeta e, paralelamente, a um enfretamento direto ao Capital. É preciso suprimir produtos inúteis (armamentos, fertilizantes e propagandas, por exemplo); promover um processo de eficiência energética (reutilização de habitações, racionamento de carros e casas); reorganizar a sociedade (com uma grande reurbanização e uma mudança radical na matriz energética).

Em especial, sobre a matriz energética, realizamos um excelente debate que teve em foco a discussões sobre os combustíveis fósseis. Mário, um dos representantes brasileiros, perguntou sobre a questão do Pré-Sal e a campanha "O Petróleo tem que ser nosso". Marijka foi muita clara que o futuro aponta para o fim do consumo de combustíveis fósseis, especialmente o mais consumido hoje, o petróleo. São muitos os motivos, destacando-se dois: 1) O dano ambiental desse combustível ao meio ambiente é irreparável; 2) É uma energia não renovável e, portanto, mais cedo ou mais tarde, não será mais disponível.

A nova matriz energética deve ser adequada a realidade dos locais. Em países com vasta exposição solar, maior será o uso de energia solar para suprir a população, por exemplo. O vento também é uma opção importante. O investimento tecnológico nessas formas de energia deve ser ampliado e priorizado, coisa que não tem ocorrido.

Sobre a campanha brasileira, unificar as lutas com trabalhadores do setor petroleiro é uma ótima oportunidade também para conscientizar os mesmos de como o petróleo é ruim. A conquista do monopólio estatal das camadas do Pré-sal deve ser para impedir que o mesmo seja de fato consumido.

Esse posição de Marijka levantou um debate entre os jovens no curso. No grupo de idioma espanhol, exemplos como o da Venezuela, que tem uma economia extremamente dependente da exportação do petróleo, foram usados como contraponto a posição anti-consumo de combustíveis fósseis. Foi considerado extremamente polêmico que países do terceiro mundo sejam subjugados a um consumo exclusivamente limpo, e não sejam capazes de garantir direitos mínimos para a população. Para garantir a questão da reconversão é preciso ganhar os trabalhadores de todo o mundo e isso será difícil se o Capital puder oferecer mais recursos e riquezas que os socialistas.

Mas nem tudo foi polêmica nessa discussão. Houve grande acordo que essa é uma questão central, e mesmo que a juventude em levante nos diversos países em crise não esteja atenta ao tema, cabe nossa intervenção apresentar que há de fato uma convergência de crises, e que a mais calamitosa faceta dela é a ambiental. A transição energética é uma tarefa para essa geração ou não será para nenhuma. Nem por isso devemos confrontar as demandas ambientais as sociais. Nesse aspecto, os povos indígenas e sua filosofia do "bem viver" unificando lutas com os trabalhadores em países como Bolívia pode ser uma grande fortaleza para a disseminação de um novo modo de vida mundial.

Mesmo não sabendo de conjunto o que fazer com todos os recursos "sujos" do planeta, está claro para a nova geração da IV Internacional que o que quer que seja utilizado, será priorizando um investimento tecnológico nas energias limpas e seguras. Além disso, é preciso lutar pelas medidas ecologicamente sustentáveis e populares agora, como a radical mudança nos transportes, ampliando seu uso coletivo, público e gratuito.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A luta das mulheres também é socialista! (parte II)

O movimento socialista deve abolir a
divisão entre o feminismo e a revolução


Na segunda parte dessa discussão, Marijke coordenou debates importantes para atualização e formação do movimento feminista hoje. Segundo ela, diversas feministas acham importante resgatar Engels (um pouco menos machista que Marx, ou mais preocupado com essa questão). Ele fez uma ligação entre a família e o trabalho, explicando a propriedade privada, e elucidando o papel central da mulher na divisão social do trabalho capitalista. Foi um dos primeiros trabalhos realmente antropológicos.

Porém, o problema é que o marxismo do século XX ainda pensou Engels de forma muito dogmática. Se olharmos o avanço da Antropologia, o que Engels dizia ser lógico não corresponde a realidade. Reduzir as contradições em nossa sociedade apenas ao aspecto capitalista é um erro, visto que muitas sociedades sem propriedade privada hoje praticam e reproduzem a opressão sexual. Olhar dessa maneira é importante para reconhecermos que o machismo não acaba com o capitalismo, e não basta ser socialista para libertar a humanidade.

Como dizia Marx no Manifesto Comunista, os trabalhadores não serão livres se não se organizarem e conquistarem essa liberdade por eles mesmo. A mesma lógica serve para as mulheres que só poderão ser livres com uma organização própria. Em diversas experiências no movimento social temos defesas de que a organização de mulheres divide o movimento, pois é o contrario. Exemplo disso está o movimento de mulheres na Tunísia, que foi capaz de fortalecer o movimento unido contra Bem Ali e avançou bastante na luta por igualdade entre homens e mulheres.

Mas nem por isso qualquer exemplo de organização de mulheres é válida. Quando as mulheres se organizam num partido fascista isso não tem nada a ver com libertação. Tem mais a ver com ajudar as mulheres a cuidar dos filhos dos soldados. Um movimento de fato autônomo significa que as mulheres não estamos subordinadas a outros movimentos, e que nossa luta e própria. Dessa maneira, é essencial que no movimento revolucionário é preciso ter mulheres na direção e nao deixarem elas serem manipuladas pelos homens.

Sobre a violencia contra a mulher, nao se limita o debate ao Brasil, assim como o problema do sistema penal. A existencia de um sistema penal e ruim em todos os lugares, mas isso não justifica ser contra uma lei contra a violencia contra a mulher, pq dessa maneira teriamos que esperar o sistema penal acabar pra defender os direitos das mulheres. Nao temos que ter a ilusao de mudar a mentalidade dos individuos, mas a partir de um movimento.

Nao podemos defender um socialismo feminista que não inclua mulheres. É muito dificil para mulheres criticarem seus companheiros, o que mostra como existe também opressão entre os socialistas. Não é possível construir uma organização revolucionária que tenha a mesma opressão de gênero que no resto da sociedade. As críticas de uma mulher ao seu companheiro não pode ser apenas particular. E as mulheres também sofrem outras opressões, como racismo e podem oprimir, como por exemplo, mulheres brancas oprimindo mulheres negras.

Fato é que mesmo depois do grande movimento das mulheres nos anos 60, muitos pensaram que o feminismo não era mais necessário. Mesmo com boa educação e inserida em boas instituições, boa parte dessas lideranças foram cooptadas pelo capitalismo. Isso gerou uma contradição com seus trabalhos acadêmicos. Isso pode ser associado a cooptação parlamentar das mulheres no século XIX, especialmente na Alemanha. As mulheres socialistas devem resgatar esse balanço e construírem uma nova perspectiva, que mantêm o movimento feminista autônomo, porém um podereso aliado da luta anti-capitalista.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A luta das mulheres também é socialista! (parte I)

Marijke Colle (abaixo) e Alexandra Kollontai (acima)
representam o presente e o passado na luta feminista e socialista

Companheiros e companheiras, a mesa com Marijke Colle (também a diretora da Escola da IV européia) foi tão boa e intensa, que preferi separar sua intervenção em duas partes. Na primeira, vemos um histórico sensacional do movimento feminista. Aguardem que estou pegando agora todo tempo livre pra atualizar o blog. Um abraço, Vinicius

Na mesa de libertação da mulher e o socialismo, a companheira Marijke Colle fez uma impressionante intervenção falando sobre a história do movimento de mulheres pelo mundo. Contou-nos como o movimento das mulheres no seculo XIX não era tão forte e foi pela ação de alguma pioneiras, como Flora Tristan que deu seus primeiros passos. Flora fugiu com os filhos de sua casa pela violência do marido, que atirou nela e mesmo sim não foi condendo. Ela foi a primeira socialista (utopista) feminista, e era seguidor de Fourier, que falava de emancipacao das mulheres pela coletivizacao das tarefas da familia, questão logo em seguida notada por Marx. Mesmo assim, na primeira Internacional tinham ainda poucas mulheres, e um modelo classico trabalhista de indústria machista. Foi Louise Michel - militante próxima do anaquismo, que impulsionou uma organização mais ampla de mulheres, depois de ser presa. Ela foi uma das primeiras militantes no mundo a lutar contra a pena de morte. Ela representa uma corrente feminista que estimula uma luta radical.

Alguns anos depois, Clara Zetkin, militante da social-democracia vai avançar a organizacao das mulheres, propondo a construção na Segunda Internacional de um Congresso das mulheres. Ela propôs uma resolução contra o trabalho noturno, para acabar com a jornada dupla de trabalho, dentre outras questões.

Mas foi Alexandra Kollontai que obtivemos maiores avanços unindo os comunistas e as feministas. Kollontai era Comissária do povo do governo bolchevique, formado após a revolução russa de outubro de 1917. Ela foi peça fundamental para avançar em seu país direitos para mulheres. Soma-se a isso o sufrágio universal e a legalização do aborto em 1920. Kollontai trabalhava por essas leis, mas nao apenas. Lutou pelo direito ao divórcio e outras liberdades individuais da mulher, não restringindo a sua luta apenas ao enfrentamento de classe.

Na segunda metade do século XX, as mulheres ainda participavam no movimento revolucionário apenas com papéis subalternos. Normalmente relatoras, se as mulheres quisessem falar, ninguém daria atenção, o que mostra um problema estrutural, uma opressão específica e revelou a necessidade de uma auto-organização das mulheres. Essa iniciativa enfrentava frontalmente a burocratização dos sindicatos e a reprodução dos mesmos de diversas práticas opressoras.

Mesmo a IV Internacional só incorporou uma marcante resolução sobre o tema em 1979, em seu Congresso. Apontou que achava fundamental que o movimento pela libertacao do corpo da mulher (que fundamentalmente apontava para a liberdade sexual da mulher) fosse uma prioridade. Esse movimento por sua vez influenciou o movimento dos trabalhadores, mudando aos poucos o papel da mulher neste movimento e também no mundo do trabalho.

Esse histórico mostrou como o movimento feminista tem muita identidade com o movimento socialista, mas que também são dois movimentos distintos e fundamentais para a emancipação plena da humanidade.

A Revolução só é, se for permanente!


Trotsky vive e nos ajuda a interpretar os levantes no Mundo Árabe

Mesmo com décadas de distância entre nossa realidade mundial atual, León Trotsky e sua contribuição marxista que destaca uma estratégia revolucionária de construção do socialismo que não precisa passar pelas mesmas etapas em todos os países, mas sim ter o compromisso de construir o enfrentamento real com as classes conservadoras da sociedade.

A verdade é que a maioria desses processos são tomados pela burguesia. Mesmo na América Latina, presidentes como Evo Morales não tem uma posição clara com relação ao socialismo. Nós esquecemos da África, mas la há um processo em vários paises de democratização e são apropriados pelo capitalismo e pela burguesia local. É assim na Tunísia, que contou com uma resistência a essa burguesia com uma revolta contra Ben Ali. Exemplo disso também é a questão dos indignados da Espanha, que se revoltam contra o governo com um caráter revolucionário, num momento em que a classe burguesa perde a legitimidade na sociedade.

Mas no Egito, partidos da pequena-burguesia não puderam suportar a defesa do governo repressivo, após a queda de Mubarak. Temos forças democráticas no Egito, que vem do proletariado a burguesia (assim como na Tunisia) e quando falamos desse processo revolucionário, falamos de diversas camadas da população. Alguns mobilizam pela construção de um Estado burguês e outros pelo fim das desigualdades sociais. Para ficar mais complexo na Tunísia, onde há ainda os partidos islâmicos, como o Enhahola, também estão envolvidos porque Ben Ali se fortaleceu contra o fundamentalismo, assim como Mubarak. O país conquistou direitos de mulheres e gays antes de vários países na Europa, por exemplo. Na Tunisia é dividida pela religião. Com todos esses problemas e contradições, esses dois processos foram confrontados pela população. As forças burguesas até agora tinham imposto seu ritmo, que era de bloquear a mobilização social. E agora se pode falar da revolução socialista.

Antes da Revolução na Rússia, os marxistas acreditavam que vários outros paises pareciam ter mais condicoes que este país não fizeram a revolução, e na Rússia sim. Isso é que faz pensarmos na possibilidade do socialismo no mundo Árabe, especialmente no Egito e Tunísia, antes de outros. O grande problema é que não temos hoje liberdade de construção de organizações de massas livres.

Mesmo assim, cabe registrar que esses processos ja inspiram outros. Em Winsconsin, nomearam a praça onde estavam sendo feitas manifestações do serviço público de Praça de Tahir. Em Burkina Faso, já há um processo de democratização nesse país. Partidos revolucionários na África estão se unindo nos processos de democratização de seus países.

Eu coloquei a questão sobre a relação da revolução permanente com conceito de hegemonia em Gramsci. E muito foi falado por Jean Nanga que o elo entre luta politica e luta economica, é fundamental para ambas as teorias. Defendeu a intensificação dos estudos sobre Gramsci, mas eu acho que deve ser colocado no programa. As lutas democráticas e as lutas por direitos sociais pode tomar uma dimensão anti-imperialista, como no enfrentamento de empresas transnacionais. A luta contra uma burguesia nacional também pode se unir a luta contra o imperialismo. Nosso companheiro da IV na Tunísia, Amami fala de uma economia popular nacional com a supressão de uma economia nacional e a presença de alguns setores estratégicos para nacionalizar, como o setor público ampliado, sob controle dos trabalhadores. Ainda nao é socialismo, mas ele admite uma etapa a frente.

Uma outra questão é sobre a religião e suas contradições com a defesa do socialismo, especialmente em países islâmicos. A contribuição Mariategui sobre fé revolucionária, ou seja, a compreensão de que mesmo a construção do socialismo pela compreensao do marxismo exige em algum nivel fé nesse debate foi uma importante idéia. Quando coloquei isso foi contestado no grupo, que considerou complexa a questao da religiao no mundo arabe ser comparada com a questao crista na America Latina. Mesmo assim, a discussao sobre o combate as praticas religiosas conservadoras se esclarecem como tarefas necessarias para a construcao do socialismo nesses paises. Jean Nanga mostrou que na Tunísia, Ali Shariani de alguma maneira trouxe as idéias da teologia da libertação para a construção da revolução socialista no mundo árabe. Jean acredita que, por esse exemplo, os religiosos tem um bom espaço sim de diálogo com os socialistas, se formos capazes de construir essas pontes.

domingo, 21 de agosto de 2011

Solidariedade... o remédio contra a doença chamada Imperialismo

Peter Drucker e Marijke Colle no debate de hoje


Hoje foi o primeiro dia de fato com debates dentro do curso de formação. O tema foi Imperialismo e debatendo desde a concepção clássica formulada por Lenin sobre a dominação superior do capital, passando por Claudio Katz e as experiência dos países emergentes no novo contexto mundial.

Peter Drucker é um importante militante da sessão holandesa da IV Internacional. Nascido nos EUA, gay e filho de uma família judia, pautou muito de seu debate sobre a atualidade do Imperialismo centrando a discussão no papel dos EUA e os conflitos no Oriente Médio. É importante ressaltar que, tanto nessa discussão quanto nas restantes, estou compilando todo o material escrito disponibilizado pela escola e socializarei pela internet quando voltar ao Brasil.

Voltando ao debate, além da brilhante intervenção de Peter na mesa, pudemos vivenciar um debate de grupos que trouxe experiências de todos os países participantes. São eles: França, Espanha, Dinamarca, Suécia, FIlipinas, Porto Rico, Turquia, País Basco, Portugal, Brasil e Croácia. O impacto do Imperialismo nos países representados no encontro contribuiu muito para a compreensão dessa dimensão em âmbito global.

O lema das tarefas para a luta contra o imperialismo no mundo é a Solidariedade. Tanto na Líbia, quando no Egito e Tunísia e outros lugares no mundo, precisamos fortalecer nossa luta local e nos inspirar nesse novo momento histórico que, se não dirigirmos para o socialismo, se apagará. Nas palavras de Peter Drucker isso se manifesta desde a luta pacifista e por democracia nos Estados autoritários, até na campanha internacional em defesa dos refugiados dos países assolados por essa repressão. O debate feito por ele foi dividido em 4 partes: 1) Resgate da Teoria Leninista; 2) Atualidade do Imperialismo; 3) A guerra contra o terror de Bush; e a fase Obama.