terça-feira, 30 de março de 2010

DEBATE DO NÚCLEO VLADIMIR HERZOG NA PUC-RJ

A todos e a todas...

O Núcleo do PSOL PUC-Zona Sul convida a todos para participar do seu lançamento no debate “Direitos Humanos: da Ditadura Militar ao choque de ordem”, que abordará a trajetória da Repressão do Estado e nas relações sociais de 64 até hoje, sob o ponto de vista dos Direitos Humanos, nesta quarta-feira, dia 31 de março, no Auditório Padre Anchieta às 18h30. A mesa contará com o deputado estadual Marcelo Freixo e o Professor da ESPM Jean Wyllys.



quarta-feira, 17 de março de 2010

A campanha indevida







Semana passada, deparei-me com a manchete do Globo “Carona em obra alheia”. Ao melhor estilo “furo de reportagem” e para a salva-guarda do saudoso contribuinte, é exposta uma matéria no citado jornal sobre a participação de Dilma Rousseff numa cerimônia de inauguração de um Hospital no estado do Rio de Janeiro, que não teria nenhuma verba federal. O texto insinua uma pré-campanha eleitoral indevida, pois somente faria sentido à presença de Dilma, que faz parte do governo federal, se tal Hospital tivesse passado por algum investimento deste. Num dos boxes da reportagem está o depoimento de Fernando Neves, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmando que “pedir votos em solenidade pública é crime”. E em jornais de grande circulação, não é?

A lei eleitoral em vigor esse ano obriga aos candidatos somente realizar propaganda eleitoral a partir do dia 5 de julho. Essa proposta expressa uma realidade completamente diferente de quando o país viveu o processo eleitoral mais rico, politizado e próximo do democrático, em 1989. Nesse período, ao contrário, a campanha eleitoral era aberta e irrestrita muito antes do que a três meses das eleições. Era incentivada e permitida a participação política ampla, como fizeram muitos artistas, personalidades, e até apresentadores de TV.

Mesmo discordando da lei eleitoral atual, o caso que avaliamos ainda é passível de profunda crítica. Basta pensarmos que grande parte das campanhas eleitorais é dedicada às chamadas “denúncias”, que variam a escândalos de corrupção, morais, ataques pessoais e etc. de seus adversários. Geralmente atacam campanhas com o mesmo peso na mídia para rebater, tanto com “direitos de resposta” que não respondem nada sobre si e somente atacam os outros, quanto as suas próprias denúncias.

Confesso que quando me deparei com a matéria em questão no Globo, quase acreditei que, na verdade, a campanha eleitoral já havia começado e o opositor de Dilma Rousseff estava esquentando os tamborins com uma denúncia que convenhamos, perto dos escândalos vistos recentemente (dinheiro na meia, desastre de chuvas, etc.) é fichinha. Mas não, o Globo, como principal jornal da grande imprensa no Rio de Janeiro (e um dos maiores do Brasil) denunciava uma campanha indevida fora do prazo. Bom, campanha por campanha, acho que o povo prefere ver um novo Hospital sendo inaugurado do que denúncias de campanha indevida de uma lei que ele mesmo ainda não entendeu. Melhor ainda para Dilma, que ri à toa vendo a matéria e ainda pode, como “direito de resposta”, inaugurar muita coisa até 5 de julho. Afinal, não estamos em campanha ainda, não é?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


Trabalhar para a esperança

Vinicius Almeida

militante do Enlace-PSOL, IV Internacional (Secretariado Unificado)


Ontem, ao saber do falecimento do companheiro Daniel Bensaid, me tomei por um sentimento comum de uma pessoa ao perder um ente querido. Daniel não era meu irmão, meu filho ou pai, primo, tio ou avô. As relações baseadas na unidade familiar clássica não me identificavam com aquele homem. Confesso que não demorou muito, meu comportamento já havia mudado para um mais esperado em nossas convenções sentimentais dessas ocasiões.

Afinal de contas quem foi para mim Daniel Bensaid? Sem dúvida se o encontrasse um dia por um acaso, sequer me reconheceria. Nunca passei um Natal, ou ano-novo com ele. Aniversário também não, e num encontro pessoal seria até difícil uma primeira comunicação, pois só o encontrei uma vez em Porto Alegre, há seis anos atrás, quando ingressava na sessão brasileira da IV Internacional, a antiga Democracia Socialista.

Entretanto, o resto de meu dia foi bem diferente dos anteriores desde o ano-novo. Estando recém formado em História, com pouca motivação e um certo desânimo, passei os últimos dias exercitando a capacidade de passar o tempo não fazendo nada, e com um grau de competência invejável. Subitamente me tomei por um ânimo, uma motivação e o levei durante o dia, estudando, respondendo mensagens, lendo, conversando com pessoas e até me exercitando.

Em especial, reli alguns textos de minha pasta eletrônica, um deles era Trabalhar para a incerteza, um brilhante artigo de Bensaid, enviado para a minha caixa de email ano passado pelo companheiro José Corrêa. Numa releitura, destaco a seguinte passagem (...)Trata-se finalmente de conseguir o nascimento de uma humanidade realmente universal e solidária, através do desenvolvimento planetário da produção e da comunicação, através do enriquecimento de todos pela contribuição das nossas diferenças (…). Seu sonho, longe de ser realizado, permanece vivo de várias formas, em especial na ação cotidiana de militantes, organizados em partidos ou não, que lutam por diversas causas, muitos sem ter o mesmo entendimento dele que acreditava, assim como eu, numa dimensão global e internacional das lutas.

Não sendo psicólogo, arrisquei uma “auto-análise” de meu estado de espírito diante do falecimento desse valoroso companheiro. A participação de Daniel Bensaid em minha vida se traduz num cotidiano, muito mais “todo dia” que vivemos com uma unidade familiar. Sua presença foi mais marcante do que muitos “amores de nossas vidas”, e sua ajuda é maior do que muitos “ombros amigos”. Ele está na carta que me deu confiança para dizer “Adeus PT!”, no meu projeto de mestrado com seu último e genial livro Os trotskismos, e em muitas análises sobre nossa realidade, principalmente interferindo como um pai, filho, irmão me empurrando, com seu exemplo, a uma obrigação de estar na luta, para uma compreensão do mundo digna de quem deseja transformá-lo.

Uma antiga expressão diz que temos uma família que não escolhemos e uma que vamos escolher. Dura é a realidade daqueles que sequer tem uma família que não escolheu, e por eles, acima de tudo, escolhi uma família cuja unidade não está na ligação biológica, no patriarcalismo ou obrigações jurídicas em decorrência disso. A família que escolhi fazer parte, e me acolheu, se une por ser tomado de um sentimento de tanta esperança que seus sonhos se realizaram, principalmente porque são feitos em coletividade, que dedicam horas de seus dias e noites, tempo de férias e até fins de semana trabalhando para que um dia esses sonhos, nossas utopias, sejam realizadas.

Mais do que trabalhar para um futuro da humanidade, lutamos para que mais e mais pessoas hoje, como milhares nas ruas em 1968 na França de Bensaid, passem a acreditar que nossa aposta no amanhã é a forma mais razoável de interpretar o mundo hoje. Se pudesse resumir em poucas linhas o legado desse homem extraordinário, que exaltava homens e mulheres comuns (muito deles com suas vidas tragicamente tiradas no mesmo dia de sua morte em Porto Príncipe, Haiti), o faria dizendo essas poucas palavras. Infelizmente não posso e, assim mesmo, me atrevo com a licença de fazer parte de sua família de socialistas, uma pequena homenagem que atravessa os limites da razão para desaguar num sopro de esperança no porvir.


Uma homenagem à Daniel Bensaid, militante do Novo Partido Anticapitalista da França que faleceu essa semana, e a todos e todas que compartilhavam de seus ideais.

Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 2010