quarta-feira, 17 de março de 2010

A campanha indevida







Semana passada, deparei-me com a manchete do Globo “Carona em obra alheia”. Ao melhor estilo “furo de reportagem” e para a salva-guarda do saudoso contribuinte, é exposta uma matéria no citado jornal sobre a participação de Dilma Rousseff numa cerimônia de inauguração de um Hospital no estado do Rio de Janeiro, que não teria nenhuma verba federal. O texto insinua uma pré-campanha eleitoral indevida, pois somente faria sentido à presença de Dilma, que faz parte do governo federal, se tal Hospital tivesse passado por algum investimento deste. Num dos boxes da reportagem está o depoimento de Fernando Neves, ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) afirmando que “pedir votos em solenidade pública é crime”. E em jornais de grande circulação, não é?

A lei eleitoral em vigor esse ano obriga aos candidatos somente realizar propaganda eleitoral a partir do dia 5 de julho. Essa proposta expressa uma realidade completamente diferente de quando o país viveu o processo eleitoral mais rico, politizado e próximo do democrático, em 1989. Nesse período, ao contrário, a campanha eleitoral era aberta e irrestrita muito antes do que a três meses das eleições. Era incentivada e permitida a participação política ampla, como fizeram muitos artistas, personalidades, e até apresentadores de TV.

Mesmo discordando da lei eleitoral atual, o caso que avaliamos ainda é passível de profunda crítica. Basta pensarmos que grande parte das campanhas eleitorais é dedicada às chamadas “denúncias”, que variam a escândalos de corrupção, morais, ataques pessoais e etc. de seus adversários. Geralmente atacam campanhas com o mesmo peso na mídia para rebater, tanto com “direitos de resposta” que não respondem nada sobre si e somente atacam os outros, quanto as suas próprias denúncias.

Confesso que quando me deparei com a matéria em questão no Globo, quase acreditei que, na verdade, a campanha eleitoral já havia começado e o opositor de Dilma Rousseff estava esquentando os tamborins com uma denúncia que convenhamos, perto dos escândalos vistos recentemente (dinheiro na meia, desastre de chuvas, etc.) é fichinha. Mas não, o Globo, como principal jornal da grande imprensa no Rio de Janeiro (e um dos maiores do Brasil) denunciava uma campanha indevida fora do prazo. Bom, campanha por campanha, acho que o povo prefere ver um novo Hospital sendo inaugurado do que denúncias de campanha indevida de uma lei que ele mesmo ainda não entendeu. Melhor ainda para Dilma, que ri à toa vendo a matéria e ainda pode, como “direito de resposta”, inaugurar muita coisa até 5 de julho. Afinal, não estamos em campanha ainda, não é?

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