sexta-feira, 29 de julho de 2011

Carta para Daniel





Vinicius Almeida
militante do Enlace-PSOL, IV Internacional

Nosso querido irmão Henrique roubando (como bom subversivo) e compartilhando (como bom cristão) as palavras de Daniel profetizou que o amor nos tornava eterno, para além da matéria. Sem saber se somos eternos ou se existe vida além desta, de carne e osso, reconheço que o amor de meu grande amigo não ficou dentro daquele caixão. Sei que ao menos enquanto viver ele estará aqui. Pois se não fosse por este amor, sabe-se lá onde eu estaria. Jogado em algum canto, existindo por conservar o que há, aceitando o inaceitável e me escondendo do inevitável.

Daniel nunca permitiu que eu me dobrasse. Há pouco mais de um ano, eu posso dizer hoje: acreditar na minha capacidade de construir o socialismo, diante de um futuro sem rumo, de um passado errante e um estado de depressão, era uma aposta solitária dele. Nem eu era seu aliado nessa aposta. Seu corpo dolorido era compelido a me visitar. Seu coração fervoroso era intimado a me animar. Sua consciência intempestiva era obrigada a me chocar com sua incrível compaixão, coragem e o ódio a injustiça.

O que mais me compelia a me reerguer não era um sentimento oportuno. Era a vergonha. Vergonha de olhar e não conseguir ver sentido como via, enxergava nitidamente, nosso camarada que não passava uma noite sem dores no corpo, e não tinha seus olhos físicos como auxílio de sua percepção apurada da realidade. Vergonha de ouvir “só estou aqui porque acredito no socialismo, para lutar pelos de baixo” de alguém que viveu no mundo terreno todas as experiências possíveis, que o tentaram a pensar o contrário. Vergonha de ter condições materiais para ser um soldado numa luta que de muitas formas ele não podia participar, mas conseguiu lutar de todas as formas que lhe foram permitidas. Essa vergonha, felizmente, rendeu-se a um compromisso, a renovação de uma fé. Uma fé que confesso estava abalada até hoje.

Sei que muitos de nós estamos com raiva pela partida de nosso arcanjo. Sei que lá dentro imploramos para não ser verdade. Sei que precisamos de mais um conforto dele, de seu calor, de sua luz. Desculpem, mas quero pensar no que ele precisava de nós, precisa e precisará. Não acredito na eternidade, que me desculpe Henrique, mas acredito numa coisa que poderia levar a isso. Acredito na História, e sei que Daniel viverá enquanto odiarmos o Capital, amarmos a humanidade e lutarmos todos os nossos dias, até não conseguirmos levar nossas carcaças para os fronts da luta de classes. Viverá se nossa obstinação pelo socialismo romper gerações, for passada de mão em mão. Viverá se orgulharmos sua exigente, porém generosa, visão de mundo. E pelo que conheço de Daniel eu sei que pensou (ou está pensando agora) “eu fiz tudo que eu pude, agora é com vocês”. Para mim, se baixarmos a cabeça e desanimarmos, ele estará distante. Se lutarmos, ele estará mais vivo do que nunca. Aceitar sua partida como inevitável e transformar o que restou de nossas vidas em algo belo virou, a partir de hoje, nossa obrigação com ele. Amo-te Daniel! E aqui prometo nunca mais ter dúvidas entre ser um revoltado ou um revolucionário. A humanidade acolherá as partes de seu coração, um coração maior que o mundo.

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