quarta-feira, 9 de novembro de 2011

8 de Novembro de 2011: um divisor de águas...


Por Rodrigo Santaella*

A terça feira, dia 8 de novembro, seguramente vai ficar marcada na memória dos brasileiros, especialmente daqueles que estiveram na Universidade de São Paulo. O reitor mais reacionário dos últimos anos que, diga-se de passagem, não foi eleito sequer no processo pouco representativo de escolha para o reitor, demonstrou mais uma vez, lado a lado com o
governador Geraldo Alckmin, que projeto de universidade pretende implementar na USP. Enfrentando processos de improbidade administrativa aos montes, sendo rechaçado em sua própria faculdade, o reitor firmou um convênio com a Polícia Militar, permitindo que esta possa não só circular dentro do campus como também abordar os estudantes e intervir em suas atividades.

A trágica morte do estudante Felipe Ramos, assassinado num dia em que, ironicamente, a PM fazia rondas no campus do Butantã, serviu como desculpa perfeita para a instauração de um regime de exceção, baseado na política do medo, no qual a PM funciona como servente de uma concepção e um projeto de universidade absolutamente antidemocrático e conservador. Neste projeto, o cenário ideal é um no qual os estudantes assistam às suas aulas e voltem para suas casas, cumpram seus horários de pesquisa e voltem para suas casas. Todo o papel de criador de seres humanos críticos e de uma sociabilidade diferente, que a universidade pode cumprir, tende a se perder com a presença e a repressão policial dentro do Campus. Mas porque a PM? A PM de São Paulo é uma instituição historicamente muito conservadora, repressora, que prestou serviços vergonhosos às elites do país, e que até hoje não se envergonha disso. Pelo contrário. Não é de conhecimento de todos, mas as 18 estrelas presentes no brasão da PM de SP representam fatos históricos, momentos nos quais a PM cumpriu um papel fundamental e se orgulha disso. Citarei apenas 3, para que fique claro o argumento: repressão à revolta de Canudos; repressão à greve operária de 1917 e, pasmem, “revolução libertadora de março de 1964”. Os dois primeiros casos são conhecidos mundialmente pela repressão brutal, atentado a todo e qualquer “direito humano” e motivo de vergonha para a história nacional. Mas a última estrela talvez seja a mais chocante. Nossa segurança, no estado de São Paulo, é confiada a uma instituição que se orgulha de ter participado do golpe militar, que a tantos matou, que tantas liberdades suprimiu e que tão mal fez ao povo do nosso país. Essa é a PM que é aplaudida pela mídia e por parte da sociedade. É essa instituição que hoje convive e contamina o ambiente de produção de conhecimento livre e democrático que deveria permear nossas universidades.

Na terça, dia 8, acordei no CRUSP – fui abrigado aí por um companheiro – para participar no dia seguinte das atividades do movimento estudantil. Fui despertado ao som de bombas e gritos. Era a nossa segurança chegando, para cumprir o seu papel. Quatrocentos policiais armados fortemente, 50 viaturas, dois helicópteros, para retirar da reitoria cerca de 70 estudantes desarmados. Aos poucos, o número de pessoas que se preocupava com o destino desses estudantes foi aumentando, e em poucos minutos éramos dezenas tentando defender nossos companheiros. A imprensa já estava lá e, estranhamente, algumas pessoas favoráveis à PM no campus já estavam lá com suas câmeras e vozes agressivas, xingamentos e provocações, antes mesmo da polícia chegar. Quem os teria avisado? Que papel eles deveriam cumprir? De repórteres da TV, ouvi frases como “só filma os estudantes quando eles não estiverem falando nada” ou “pega só aquele mais agressivo, só aquele”. De alguma forma, era tudo um teatro, com um roteiro relativamente bem definido pela polícia. Nós éramos figurantes. Corríamos, tínhamos medo, mas bravamente tentávamos entender o que estava acontecendo e proteger os/as estudantes que estavam dentro da reitoria. Mas a operação havia sido muito bem pensada para impedir qualquer resistência, para garantir que a mídia só entrasse no local da ocupação bastante tempo depois da polícia ter entrado quebrando tudo. Além de pinturas nas paredes, não havia nada quebrado até a polícia entrar, mas a depredação de patrimônio público é sempre um prato cheio para formar opiniões, principalmente quando referendada com imagens...

Depois dessa demonstração de força brutal da polícia, de horas em pé, primeiro no frio da madrugada e depois sob o sol escaldante da manhã, com um saldo de cerca de 70 presos políticos, o sentimento geral era de tristeza e impotência. Mas mais do que isso, era de indignação. E foi justamente esta indignação, que reascendia todos os sentimentos de defesa da democracia da nossa universidade, que levou de uma situação na qual havia 70 estudantes ocupando a reitoria, pela manhã, e algumas centenas os defendendo ao longo do dia, para uma assembléia na qual milhares estavam presentes para demonstrar sua indignação e discutir os melhores métodos de luta contra essas situações absurdas. Se algo de positivo foi regalado através dessa ação absurda da reitoria, do governo do Estado e da Polícia Militar, isso com certeza é a retomada da unidade do movimento. Fragmentados, desorganizados e burocratizados de fato não conseguiríamos vitória alguma. O fato político criado com a operação de guerra montada na USP, que mostra para a os/as estudantes e para a sociedade como um todo o real motivo da presença da PM na USP – imprimir à força qualquer política da reitoria e do governo Alckmin, além de reprimir os estudantes – será um divisor de águas no movimento estudantil da USP e do Brasil. Pode ser um divisor de águas na própria luta social no Estado de São Paulo.

A assembléia de ontem, com mais de 3 mil estudantes, num dos momentos mais importantes do movimento estudantil brasileiro dos últimos anos, decretou greve geral dos estudantes da USP. Esse é só o começo da luta. É preciso massificar essa greve, levar para todas as unidades, chamar os professores e funcionários para a luta, e fundamentalmente trazer para as atividades as comunidades, o mundo fora da USP. Se se trata de uma das universidades públicas mais elitizadas do país, não há melhor momento para trazer as comunidades, os movimentos sociais, para a luta. Porque essa luta não é só dos estudantes, e não é só da comunidade universitária. Essa é uma luta por um modelo de sociedade. É um basta aos absurdos, à falta de democracia, ao autoritarismo da reitoria. Mas deve ser também um basta às tentativas de fechar a universidade em si mesma, de produzir conhecimento simplesmente voltado aos interesses privados das grandes empresas. É necessário que as comunidades tenham acesso aos espaços da USP, freqüentem a universidade, que os filhos dos trabalhadores possam entrar estudar na universidade. A idéia de uma guarda comunitária/universitária, treinada e concursada pela própria universidade, parece muito mais coerente com um projeto de universidade livre do que a instituição mais repressora e conservadora do Estado.

A nossa tarefa, como militantes, como estudantes, como organizações políticas, é a de jogar todo peso na construção dessa greve, tirada democrática e legitimamente na maior assembléia dos últimos anos na USP. É preciso preservar a unidade do movimento, resgatada a partir da repressão policial e da truculência da reitoria. Dialogar com servidores e professores. Temos que parar a USP até que ela volte a ser uma universidade livre e democrática.

Se o dia 8 de novembro amanheceu triste, frio e cinzento, sem dúvida a alvorada dos tempos que virão promete ser dura, mas apontando para dias mais belos.

Não somos melhores do que ninguém. Mas melhor, sem dúvida, é a nossa causa.


* Militante do Coletivo Levante, Juventude do Enlace, da IV Internacional e do PSOL

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