sábado, 5 de novembro de 2011

Quantos estudantes valem uma PM no Campus?



escrito por Vinicius Almeida*

Foi adiado para segunda-feira o prazo dado pela justiça para que os estudantes ocupados na reitoria da USP se retirem de lá. Pelas declarações do governador de São Paulo, a polícia paulista, a mesma que foi pivô de tanta polêmica na opinião pública, terá carta branca para, se preciso for, reprimir violentamente qualquer um que persista no prédio da direção da universidade.

Os encapuzados da reitoria, tratados como vândalos pela mídia, não usam máscaras bonitinhas do V de Vingança. Não pensam a política como crítica ética aos representantes institucionais, o que a mídia exalta sempre. São tratados como maconheiros e arruaceiros. E por isso mesmo, não tem direitos de um cidadão. Mas a pergunta que fazemos é: quem são eles?

Não sou paulista, mas imagino que a reação de uma família deste lugar, quando um de seus filhos é aprovado no vestibular da Universidade de São Paulo, é de grande orgulho e satisfação. Já são poucos os que podem pagar uma educação básica que lhes dá chance, depois de uma concorrência voraz, noites mal dormidas, horas a fio estudando e estudando, de alcançar essa vitória social, e acima de tudo, moral. Os que não conseguem, passam a pagar por uma faculdade com um emprego, duplicando sua carga de esforço e exploração. Uma minoria, muito mais minoria ainda, não precisa trabalhar, e esnobam, mas não se orgulham. Os que conseguem, devem então cuidar de suas vidas e regozijarem de seu status de “melhores”, de “vencedores”.

Só que alguns “loucos” pensam “pô, que injusto eu passar e a maioria não poder estudar aqui, de graça”. Mesmo estes sabem que nada é de graça, que o Estado paga pelos estudos dos matriculados na USP, e, na maioria das vezes, os seus contribuintes pagam para não poder usufruir desse direito, como os estudantes das pagas e gente que nunca vai saber o que é universidade. Estes “rebeldes” pensam com 18, 19 e 20 anos de idade o que muitos no fim de suas vidas não pensam, que a universidade deve ser do povo, pois é o povo que paga com seu suor a existência dela.

E são esses “lunáticos” que lutam por uma universidade aberta, livre e democrática. Que escondem os seus rostos porque o reitor pode, deve e vai caça-los, um a um, depois que a poeira baixar e a mídia esquecer dessa gente. Gente que, para todos os efeitos, são os “melhores”. Membros até então de um grupo seleto, que abriram mão de seu status, se encapuzando, lutando por igualdade, e assim tornam-se mais indesejados que todos os excluídos da universidade. Não “honraram” sua função social de elite, não se colocaram como casta superior.

A sociedade paulista escandaliza-se mais ao saber que seus “queridinhos” traem os bons costumes fumando maconha e, pior, até defendendo sua legalização, em muitos casos. Pior ainda, eles se voltam contra a defesa da ordem, a polícia, que policia hoje no Butantâ não só de um possível roubo, mas os estudantes que passam “matando aula”, ou “fazendo politicagem contra a PM”. Segurança é a última preocupação dos policiais, a primeira é reprimir seus críticos, é tutelar e alinhar a futura elite na ordem.

E em resposta a tentativa de cercear a pouca liberdade ainda existente na universidade, mil estudantes saíram em passeata na segunda-feira passada. Foi com ódio àqueles que estão tirando seus direitos de ir e vir, de se expressar, que os estudantes se levantaram. Vossa atitude é extraordinária, mas nem por isso errada. Hoje, com tanta coisa errada acontecendo, o certo passou a ser coisa de maluco. Como bom lunático, inconsequente, louco e imprudente que sou, apoio a ocupação dos estudantes da USP. Apoio também toda luta para retirada da PM do Campus e pelo fim do convênio da reitoria com ela.

Mas será que alguém quer saber o que pensam os “insanos” alunos da USP? Não, mais fácil é seguir o que falam os programas na TV e rádio, os grandes sites da internet, os bons conselheiros de sempre, que nunca explicaram porque há tanta injustiça. Agora, depois da morte de Felipe Ramos, que estimulou e justificou toda ação repressora que vemos, o que vão dizer da morte de um estudante pelas mãos daqueles que entraram no campus para, em tese, defender suas vidas? A ordem já foi dada, só resta apertar o gatilho.

Campinas, 5 de novembro de 2011

* Vinicius é estudante da pós-graduação da Unicamp (Mestrado em Ciência Política), militante do PSOL, do coletivo Plantando Sementes e ex-diretor da UNE pela Oposição de Esquerda de 2007-2009.




4 comentários:

  1. Pois é, irmão... Pode-se entender um governo quando se vê como ele trata seus opositores. Aqui em Toronto há mais de dois meses cerca de duzentos manifestantes estão acampados em uma praça pública para protestar contra o modelo econômico, globalização e coisa e tal... "Occupy Toronto" é o nome do movimento. É o mesmo de NY, Chicago etc. Entre outras coisas os manifestantes promovem passeatas quase diárias, tem um teatro e promovem debates.
    O que me deixou mais surpreso foi que ao invés de repressão, a atitude do governo, polícia e população foi de apoio e negociação. Veja bem, os caras estão acampados em uma praça e foram colocados mais banheiros públicos do que eu vi em qq bloco grande no carnaval do Rio.

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  2. Faltou explicar o motivo pelo qual é contra a presença da polícia no campus.

    Dr. Vitor Miranda, a diferença pro "Occupy Toronto", "Occupy Wall Street", "Occupy (escreva aqui qualquer outro nome de metrópole)" é que eles ocuparam praças, e na USP invadiram um prédio público, quer dizer, dois prédios públicos e os depredaram.

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  3. Caro ACFilho, o motivo foi muito bem explicado no artigo. A PM, desde que começou o convênio, não tem permanecido no campus para garantir a segurança da ninguem. Eles tem feito revistas constantes em Centros Academicos, sem qualquer motivo aparente (ja sumiu R$ 5 mil de um deles logo apos a revista da PM), tem abordado estudantes parados e sentados pra saber se "estão matando aula"? Por outro lado, não se preocuparam ainda em coibir qualquer excesso das choppadas da medicicina (que nao fica no Butanta) ou FEA, onde morreu o jovem Felipe Ramos.

    Pior ainda, tem abordado estudantes para perguntar se eles são contra ou a favor da PM no Campus. Sou contra por diversas razões, mas foco no meu texto como sua ação é uma violação de direitos civis, de ir e vir e de expressão (ta bem explicita essa parte do texto). Pra vc que acha que os estudantes so querem saber de fumar maconha, leia o artigo da professora Raquel Rolnik e veja se faz algum sentido pra vc...

    https://raquelrolnik.wordpress.com/2011/11/04/muito-alem-da-polemica-sobre-a-presenca-ou-nao-da-pm-no-campus-da-usp/

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  4. Não entendi?! Praça não é uma área publica? Ruas (onde passam carros, ônibus etc.) não são públicas?

    Na visão obtusa de uma pessoa que tem que ir e voltar do trabalho todos os dias eu iria preferir que os estudantes ocupassem o campus ao invés de uma rua ou praça pública!

    Quanto à depredação, se houver, o DCE deve ser responsabilizado de forma justa, e, não, histérica como estão fazendo!

    A Universidade tem como missão a promoção do debate! Nunca a imposição de condutas. Os estudantes, representados pelo DCE, não foram consultados em relação à presença da PM no Campus. Simples assim... Eles tem o dever de se manifestar!

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