quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Revolução só é, se for permanente!


Trotsky vive e nos ajuda a interpretar os levantes no Mundo Árabe

Mesmo com décadas de distância entre nossa realidade mundial atual, León Trotsky e sua contribuição marxista que destaca uma estratégia revolucionária de construção do socialismo que não precisa passar pelas mesmas etapas em todos os países, mas sim ter o compromisso de construir o enfrentamento real com as classes conservadoras da sociedade.

A verdade é que a maioria desses processos são tomados pela burguesia. Mesmo na América Latina, presidentes como Evo Morales não tem uma posição clara com relação ao socialismo. Nós esquecemos da África, mas la há um processo em vários paises de democratização e são apropriados pelo capitalismo e pela burguesia local. É assim na Tunísia, que contou com uma resistência a essa burguesia com uma revolta contra Ben Ali. Exemplo disso também é a questão dos indignados da Espanha, que se revoltam contra o governo com um caráter revolucionário, num momento em que a classe burguesa perde a legitimidade na sociedade.

Mas no Egito, partidos da pequena-burguesia não puderam suportar a defesa do governo repressivo, após a queda de Mubarak. Temos forças democráticas no Egito, que vem do proletariado a burguesia (assim como na Tunisia) e quando falamos desse processo revolucionário, falamos de diversas camadas da população. Alguns mobilizam pela construção de um Estado burguês e outros pelo fim das desigualdades sociais. Para ficar mais complexo na Tunísia, onde há ainda os partidos islâmicos, como o Enhahola, também estão envolvidos porque Ben Ali se fortaleceu contra o fundamentalismo, assim como Mubarak. O país conquistou direitos de mulheres e gays antes de vários países na Europa, por exemplo. Na Tunisia é dividida pela religião. Com todos esses problemas e contradições, esses dois processos foram confrontados pela população. As forças burguesas até agora tinham imposto seu ritmo, que era de bloquear a mobilização social. E agora se pode falar da revolução socialista.

Antes da Revolução na Rússia, os marxistas acreditavam que vários outros paises pareciam ter mais condicoes que este país não fizeram a revolução, e na Rússia sim. Isso é que faz pensarmos na possibilidade do socialismo no mundo Árabe, especialmente no Egito e Tunísia, antes de outros. O grande problema é que não temos hoje liberdade de construção de organizações de massas livres.

Mesmo assim, cabe registrar que esses processos ja inspiram outros. Em Winsconsin, nomearam a praça onde estavam sendo feitas manifestações do serviço público de Praça de Tahir. Em Burkina Faso, já há um processo de democratização nesse país. Partidos revolucionários na África estão se unindo nos processos de democratização de seus países.

Eu coloquei a questão sobre a relação da revolução permanente com conceito de hegemonia em Gramsci. E muito foi falado por Jean Nanga que o elo entre luta politica e luta economica, é fundamental para ambas as teorias. Defendeu a intensificação dos estudos sobre Gramsci, mas eu acho que deve ser colocado no programa. As lutas democráticas e as lutas por direitos sociais pode tomar uma dimensão anti-imperialista, como no enfrentamento de empresas transnacionais. A luta contra uma burguesia nacional também pode se unir a luta contra o imperialismo. Nosso companheiro da IV na Tunísia, Amami fala de uma economia popular nacional com a supressão de uma economia nacional e a presença de alguns setores estratégicos para nacionalizar, como o setor público ampliado, sob controle dos trabalhadores. Ainda nao é socialismo, mas ele admite uma etapa a frente.

Uma outra questão é sobre a religião e suas contradições com a defesa do socialismo, especialmente em países islâmicos. A contribuição Mariategui sobre fé revolucionária, ou seja, a compreensão de que mesmo a construção do socialismo pela compreensao do marxismo exige em algum nivel fé nesse debate foi uma importante idéia. Quando coloquei isso foi contestado no grupo, que considerou complexa a questao da religiao no mundo arabe ser comparada com a questao crista na America Latina. Mesmo assim, a discussao sobre o combate as praticas religiosas conservadoras se esclarecem como tarefas necessarias para a construcao do socialismo nesses paises. Jean Nanga mostrou que na Tunísia, Ali Shariani de alguma maneira trouxe as idéias da teologia da libertação para a construção da revolução socialista no mundo árabe. Jean acredita que, por esse exemplo, os religiosos tem um bom espaço sim de diálogo com os socialistas, se formos capazes de construir essas pontes.

5 comentários:

  1. O companhanheiro da Tunisia fez uma fala no curso ou participa dele? Os relatos estão muito bons, parabéns.

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  2. Esse relato ultimo tem um pouco dessa confusao pq o companheiro que falou (que nao era o Amami) tem restricoes sobre a divulgacao publica de sua figura.

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  3. Não entendi onde é que o Trotsky entra nessa história. Em todo caso, a Revolução aconteceu na Rússia, mas somente a dissolução da Assembléia Nacional Constituinte pôde impor a hegemonia bolchevique contra a preferência popular pelos socialistas-revolucionários. É possível que o mesmo aconteça nos países citados? Mais grave: é desejável? Além disso, Tio Vini falou em revolução socialista como sinônimo de revolução marxista? Por que se tiver, eu sinceramente não vi na conjuntura analisada pelo texto indícios para tanto. Mas se estamos falando em revoluções "socialistas" em geral, o texto me faria maior sentido, mas não há portanto chance maior de choque entre os projetos socialistas conflitantes? Qual projeto socialista está em maior chances de se concretizar nos países supracitados? Seria o "trotskyista", sob que auspícios? E o que se entende por socialismo nesse contexto? "Ishtiryarkia", que sabidamente se opõe às noções marxistas de socialismo?

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  4. Querido Ruivo... somente vi seu comentário agora. Realmente, estava até agora revisando vários erros de grafia (estava no início do uso de meu novo laptop, que tem teclado Apple, e tava apanhando) Pode ser que no relato realmente não esteja claro a relação de Trotsky com o debate de revoluções no mundo árabe (procurei melhorar o nível dos relatos nas postagens seguintes). Mas a idéia foi considerar que, a partir de uma análise da realidade que considera a dimensão da luta de classes e superação do capitalismo a partir dela, ou seja marxista, consideramos que a estratégia mais adequada para os lutadores no Oriente Médio é não parar seu processo revolucionário nas conquistas ditas "democráticas", o que insinua a perspectiva de Revolução Permanente, presente já nas obras de Marx e consagrada pela contribuição do ucraniano comunista. Acho que mais preciso do que dizer que na Rússia a "Assemblédia Nacional foi dissolvida" é mostrar que os sovietes passaram a conduzir o processo de emancipação dos trabalhadores na Rússia. Por fim, o entendimento do socialismo aqui é marxista sim, e não utopista (como antes de Marx) ou reformistas (combatido pela resistência comunista liderado por Rosa, Lenin e Trotsky).

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  5. Entendo que um marxista não iria se contentar com a democratização dos países árabes, mas há entre os inúmeros grupos que compõem os grupos insurgentes socialistas que poderiam ser rotulados como "utopistas", "reformistas" e outras categorias não-exemplificadas mas certamente não inclusas nesse entendimento. Como inserí-los nessa estratégia? Cada conjuntura vai exigir sua tática, é verdade, mas o que fazer com aqueles revolucionários que NÃO quiserem ultrapassar a etapa da "democratização"? Poderão ser eles considerados menos representativos da vontade geral do que os que querem dar "permanência" à Revolução? Casos como o egípcio são notáveis, pois o poder instituído foi derrubado pela pressão direta do poder constituinte, de modo que não será fácil contestar a representatividade de nenhum dos setores envolvidos.
    Por mais que os sovietes tenham de fato assumido a vanguarda do processo revolucionário na Rússia, nada muda o fato de que em um dia de assembléia a Constituinte foi fechada. Em que pese a noção ipso pos facto de que os sovietes conquistaram avanços, o nosso benefício da posteridade nos ensina que uma das grandes tragédias da URSS foi a não-institucionalização das conquistas proletárias (outra foi a institucionalização do partido bolchevique). Como o Secretariado Unificado compreende esse processo? Não há uma lição a ser aprendida e uma autocrítica a ser feita para que se possa aplicar Trotsky à Primavera Árabe? Noves fora a inexistência de sovietes nos países árabes, certamente não há trotskyista sério que queira arriscar o retrocesso de uma guerra civil, correto? E caso ela venha, quais serão os critérios decisivos para a vitória? Quão revolucionário seria seu resultado se a própria Guerra Civil Russa por pouquíssimo não desandou para um desfecho oposto?

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